2 de agosto de 2008


terceiro sábado seguido que trabalho. quando deu 19hs eu nem acreditava. morreu ninguém, nem tampouco alguém complicou. mas foi muito, muito cansativo.

senhora de 78 anos que está lá faz tempo. era cuidada por um de seus dois filhos e que possui um discreto rebaixamento da cognição. ela é linda, italiana da moóca, acha meus sapatos lindos, hoje elogiou meus brincos. adoro conversar com ela, que está sempre cansada. um dia lavou muita louça e me aponta uma pia imaginária. noutro limpou toda a casa e cozinhou para a família. escuto seus devaneios. ela é uma senhora linda.

outro caso que acaba com a minha saúde é a de uma mulher que está mal, mas tão mal. o filho, um adulto frustrado e arrogante simplesmente não aceita que ela morra. e a partir daí quer que tudo seja feito para mantê-la viva. "isto é distanásia", eu disse para ele num dia. ele sabe disto.


lembrei de uma viagem de avião que eu fiz. viagem longa, mais ou menos umas onze horas e meia. tomei três comprimidos de lexotam, porque eu tenho pavor de avião. lá pelas tantas chega a comissária e me pergunta o que vou beber: "vin rouge, bien sûr". é claro que me deu barato, foi uma sensação muito boa. nunca tinha feito uma coisa assim, tomar bzd e álcool, nem nos meus tempos de estudante ou de residente. eu era careta demais. lembrei disso porque hoje eu estou me sentindo assim, sem ter tomado bzd com vinho tinto.


vi um filme francês bacana na tv ontem de noite, algo como "um lugar na platéia", será isso? deu um dejà vu...

31 de julho de 2008

dia cinza. plantão mais ou menos calmo. não sei mais se tenho rinite, traqueíte ou qualquer outra "ite". talvez seja só tempo, mas pode ser que seja também pela reforma do hospital: tem muita poeira lá. tem uma paciente que está em coma há mais de dois anos. ela teve acidente vascular cerebral mais de seis vezes. eu disse seis vezes. estado vegetativo, cheia de tubos, sondas, respiração artificial. precisa de drogas para o coração funcionar e agora seu rim está, finalmente, entrando em colapso. mas seus filhos simplesmente não aceitam e querem que ela "sobreviva" de qualquer maneira. é claro que isto não é viver. mas eles não aceitam, parece que gostam que ela sofra, que querem que ela sofra. a coisa toda virou um tormento.
mas o fato é que estou farta!

notei que ninguém mais entra por aqui. comprovação da teoria de que se você tem blog, tem de visitar outros blogs e comentar. tem de deixar rastros, caso contrário ninguém se lembra de você. chato, eu acho.

mas não tem nada não. vou continuar com o estilo diário por aqui. sem amarguras, bîen sûr.

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assisti antes de partir. talvez eu estivesse precisando chorar um pouco, mas o caso é que eu chorei muito, mas tanto, que os gatos se assustaram. eles fazem uma lista de coisas para fazer antes de partir (assim que os paliativistas falam: partir). bacana. triste, mas muito bom.
(imagem acima é uma cena do filme)

29 de julho de 2008


estou com síndrome de burnout, só pode ser burnout. engraçado é que demorei a ter a síndrome desde que comecei a trabalhar como paliativista, dois anos e meio para mais. como cirurgiã era uma vez a cada dois/três meses. eu me sentia sobrecarregada, como o Atlas carregando o mundo quando tinha que decidir/mudar uma tática operatória...
mas que assunto chato!


meu gatinho siamês está crescendo e mostrando suas garras. resmungão, só faz o que quer. se não pode, fica miando/resmungando. lindo, com seus olhinhos azuis desbotados.

alguém já me disse alguma vez que tinha olhos azuis desbotados. faz muito, muito tempo.